Conto: Vida - Wesley Ítalo

Um conto... Apenas um conto. Mas um conto que te faz refletir e para muitos pode ser um "tapa na cara". Uma mente aprisionada em um corpo fazendo o que resta a fazer recordar do que foi sua vida, do que foi bom e virou abandono. O Wesley me surpreendeu ao fazer com algumas palavras, poucas frases um relato emocionante de uma Vida, um texto que toca o coração e o faz ficar apertado, que me fez querer entrar na história e segurar a mão e dizer eu estou aqui. Mas que também me fez pensar o que realmente vale a pena.

Conto - Vida 

Acho que hoje seja um bom dia para morrer.

Não sei que dia é hoje. Quarta? Segunda? Sexta? Afinal, de que isso importa se o dia não vai impedir a minha morte?

Ouço Lídia se aproximar. A essa altura, é impressionante que eu ainda consiga ouvir alguma coisa, estou certa disso. Ela chega ao meu ouvido e diz que vai buscar o meu remédio, o que não demorará mais que cinco minutos caso ela não encontre nenhuma outra cuidadora pelo caminho. Apenas mexo a cabeça de forma afirmativa. Não tenho mais forças para falar nenhuma palavra. Fazem algumas meses que a minha comunicação se reduziu a isso.

Sempre tive muito vigor, alegria, animo para enfrentar a vida. Nunca imaginei que terminaria os meus dias inválida, em uma cama imunda, sozinha, abandonada como uma cachorra de rua doente. Esquecida.

Isso dói.

Pensar que uma vida dedicada a família não serviu para muita coisa. Para nada na verdade. Hoje mais do que nunca percebi isso. Quando é hoje mesmo?

Lembrar deles é a única coisa que me faz saber que tudo aquilo foi real, por mais que seja algo muito distaste de tudo que vivi nos últimos anos. Ou seriam décadas? Não lembro. Não me importo.

Minha mãe sempre disse que eu deveria casar e ter filhos para ter uma boa vida e não ficar sozinha quando ficasse mais velha. Ela estava completamente enganada. Gostaria de dizer isso a ela, mas não posso, não agora. Talvez mais tarde eu a encontre diga pra ela.

Sempre me dediquei ao meu marido e aos meus filhos. Uma vida inteira. A minha vida inteira. E o que ganhei em troca? Abandono. Desprezo. Um quarto com outras quatro mulheres, tão velhas quanto eu. Tão sozinhas e esquecidas quanto eu.

Apesar da dor, permito-me lembrar. Eu não queria, mas acredito que já tenha perdido o poder de escolha também. Flashes repentinos me invadem. Acho que aquela história de que nossa vida passa diante dos nossos olhos quando vamos morrer é verdade.

Vejo ele rindo, duas crianças correndo pela grama. Estamos felizes. Ele me abraça, com ... amor? Damos as mãos e começamos a caminhar.. Logo a cena muda pra o primeiro dia de aula das crianças. Filhos gêmeos sempre tinha sido meu sonho e eu consegui realiza-lo. Os deixo na escola e quando eles se despedem eles falam que me amam. Amam? Na hora aquilo parecia verdade.  Nas imagens que aparecem em seguida eles já cresceram, não sei onde o pai deles está e  presumo que tinha morrido, estão carregando uma senhora que se debate desesperadamente. Percebo que aquela sou eu. Sinto as lágrimas escorrerem dos meus olhos.  Eles fizeram mesmo isso. Cortaram a minha existência da vida deles. Aqueles que um dia disseram que me amava, que jamais me deixariam só. Palavras vazias. Mentirosas.

Lídia aparece com um comprimido na mão e na outra traz um copo com água. Pelo que vi, ela não encontrou ninguém.

— Vamos dona Vida, está na hora do seu remédio.

Ela fala com uma animação tão falsa e robótica que morreria outra vez para não ter que vê-la novamente.

— Dona Vida? — Ela está gritando. Eu permaneço imóvel. — Acorde dona Vida! Acorde!

Continuo parada. Certamente gelada. Sem respirar.

Uma Vida morta. Vida sem vida.

                                                                                   Wesley Ítalo - Blog Entre Livros e Unicórnios

* Imagem retirada da internet.

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