Resenha: Respire Fundo - Camila Marciano


A dor e a alegria, a tensão e a descontração, o fundo do poço e o renascer, tudo junto e misturado nessa história. Respire Fundo e mergulhe na história da Andréia, uma mulher gente como a gente, que começou do zero, junto com seu pai e conseguiram fazer um império de 22 empresas, mas que acaba perdendo tudo depois de por amor confiar na pessoa errada e ser vítima de uma armadilha do destino.

"É isso o que falam sobre vestir para impressionar. Pode a blusinha ter custado quinze reais na liquidação da Marisa, mas se ela for A Blusa e fizer parte de um conjunto de garimpo de roupas igualmente bonitas, ninguém vai dizer ao que você veio antes de você mesma falar o propósito."

Esse livro é daqueles que te faz parar para pensar: Por que eu estou reclamando mesmo? Tá, eu sei, eu sei...São personagens fictícios, mas eles trazem um quê de realidade tão grande, que é difícil não achar, que eles podem muito bem estarem bem aí do seu lado.

"A vida vem de dentro de uma mulher e você é o quê? A vida vem de dentro de uma mulher, mas todos os homens dizem que parto dói sem nunca saber o como. Eles não possuem o milagre e passam a vida inteira caçando o que fazer enquanto nós parimos. Todos os partos doem. Nascer dá trabalho, mas você já sentiu a dor de um renascer? Tuas pernas estão prontas e chutando, seus braços estão prontos e batendo. Já aprendeu a engatinhar, já aprendeu a andar e até a segurar o choro na alegria e na doença."

Andréia, após ter a maior decepção de sua vida, a pessoa que ela escolheu para ser o seu "feliz para sempre", lhe vira as costas no momento que mais ela precisa. Ele simplesmente não acredita nela e joga tudo pela janela, anos ao seu lado reduzidos a um pé na bunda, sem chances de defesa.

"Eu ainda sou de carne e osso e um monte de chutes na porta. O mercado não me quis e eu virei atendente de telemarketing. Revendedora da Avon. Manicure. Porteira. Virei Uber. O Uber não me quis, vendi bolo. Eu não parei. Eu me recusei a parar."

Mesmo grávida, sem dinheiro e sem apoio, ela não dá o braço a torcer, sacode a poeira e vai a luta, vai subindo a escada de vida, após o tombo, ora subindo dois degraus, ora descendo um, mas sempre em frente.

"O mote que eu carrego no peito é Amélia, o mesmo nome da minha mãe, o meu coração é dela, e como mulher nunca é uma coisa só, mas esse espelho multifacetado que ora quer dizer sim e ora quer dizer jamais, e o pessoal aí de fora quer fazer parecer que somos loucas, meu coração pesa no peito, mas é por Amélia que se mantém batendo e chutando."

Ela coloca seu lado mulher em "stand by" e vive apenas com o modo mãe acionado, sempre pensando no bem estar de sua filha, ela que lhe deu vontade de seguir em frente e forças para vencer os obstáculos.

"É claro, a minha filha sempre recebeu a prioridade. Foi ela que me salvou nos dias mais escuros, mas, mesmo assim, eu acho que ela nunca me viu nos meus melhores dias. Mesmo quando a gente se divertia e brincava, ou quando lia um romance de cavalaria, eu sei, no fundo do meu peito, que eu podia ter sido mais alegre e vibrante para ela."

Mas sete anos após, ele vê uma luz no final, algo que ela quer se apegar com unhas e dentes para mostrar ao mundo quem ela realmente é, vê a chance da dar uma vida melhor para sua filha. Essa luz tem nome: Bento.

"Um homem só vale a pena ser descrito e admirado depois que vemos como trata sua mãe. Aprendi essa depois de muita paulada na cabeça. Se um homem não tem decência suficiente para tratar a mãe, o que é que a gente, mulher comum, pode esperar?"

Um arquiteto super talentoso, mas que não entende nada de administrar os negócios, e vê sua empresa afundar cada dia mais, mesmo com o sucesso de seus projetos. E por sugestão da mãe, contrata Andréia para fazer sua empresa sair do vermelho e superar a crise que estão vivendo.

— Meu filho, tá achando que depois de falida a gente escolhe com o que vai trabalhar?!
— Cê tá vendendo bolo e nem me traz um? - O jeito como sorria. O jeito como não ficava envergonhado diante da saída que consegui para cuidar da vida. O jeito. Todo o jeito. O cara é bonito, o cara é gostoso.

Obs: Sua última atividade financeira era vender bolo de pote em sociedade com sua amiga e vizinha.

Bento é um nerd fofo, super charmoso que começa a abalar as estruturas de Andréia, ele vai chegando devagar, conquistando milimetro a milimetro a confiança da "Dé" como ele a chama. Ele vive apenas para a trabalho, sem vida social, sem amigos próximos, quase isolado. Mas quando conhece sua diretora algo muda, e ele quer ter sempre essa mulher por perto.

"— Tão difícil encontrar alguém que encara o trabalho do mesmo jeito que eu, que tô até encantando. 
— Não se encante: Não sou para o seu bico.
— Que ótimo. Porque eu não tenho bico."

E juntos ele vão descobrir o que é ter alguém para dividir as tristezas e alegrias, o que é poder contar sempre com alguém.

"— Ok. - Deus abençoe o homem que sabe ouvir um não sem fechar a cara, sem mudar a forma como te trata e que leva um fora numa boa: Deus abençoe o homem adulto. - Bom, então eu vou continuar a pesquisa de museu. Me avisa quando sair da reunião com o secretário?"

Essa história trás umas mensagens que merecem serem refletidas, algo que muitas vezes nos passam despercebidas, e com a ajuda de uma história como essa podemos ter a oportunidade de mudar. Eu pergunto: Você está feliz com a sua vida? Se não por que não mudar? A gente só vive uma vida, não dá para desperdiçar com aquilo que não nos faz bem.

"Mas nossas histórias não são segredos. Se perdemos a cor de continuar num emprego, se perdemos a cor de continuar num relacionamento, se nos escondemos e fingimos que está tudo bem enquanto reunimos pedras no lugar da aorta e se nós sangramos por todos os poros, você sabe o que rolou. E essa descoberta não vai ser o ponto alto dessa história. Essa descoberta está clara desde a sinopse."

Outro assunto que é abordado é uma questão muito dolorosa: Abuso. Nenhuma mulher MERECE passar por isso, nenhuma mulher merece passar SOZINHA por isso, esse é um momento que ela está mais frágil, que precisa o apoio, do carinho, da ajuda de todos que convivem com ela, e não ser responsabilizada como culpada, por causa de uma roupa, por causa do local que se encontra, por causa de uma situação. Ela NÃO é culpada. E por meio de personagens assim que vimos o quão difícil pode ser.

"Essa é a bosta de ser sobrevivente. A gente não é vítima, lava a boca para falar de mim assim. A gente é sobrevivente. E toda vez que um cara chegar com os braços cheios de dedos para cima de mim eu vou lembrar como quiseram o meu fim e como parte de mim morreu. A foda é a gente achar que já se recuperou. E se você não fala nada, as pessoas não sabem que você nunca morreu."

Mais uma vez me encantei, me envolvi, me identifiquei com um livro da Camila, com seus personagens bem construídos (quase reais), com uma trama bem elaborada, com senso de humor que cativa. A escrita fluida e direta, e uma narração que te coloca dentro da história onde a Andreia, desabafa, explica, interage com o leitor, que no final do livro você se sente a "best" dela.

*Trechos em negrito e itálico foram retirados do livro.

Sinopse: 
Quando disse "sim" no altar, Andréia Borges não esperava levar um golpe. De empresária com prestígio e dinheiro a mãe de carreira solo sem um puto no bolso.

A solução para isso foi simples: Respirou fundo, limpou os joelhos da queda e fez o que as mulheres fazem quando se vêem com um filho para criar e nenhum suporte.

Na contramão vem Bento Castro, um arquiteto premiado, herdeiro da empresa do pai, muito bom com desenhos e projetos, mas um péssimo administrador. Vê seu império ruir um pouco por dia e não sabe o que fazer. Nem como.

O leitor pode achar que esta é mais uma história de um CEO que se apaixona por uma mocinha pobre e indefesa.

Mas você já viu uma mãe ser menos que leoa?

Não é que Bento se apaixona, veja bem:

É que Andréia o deixa sem ar.

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